11 Set/25 Anos: Nova Iorque reergueu-se após atentados, mas cicatriz permanece
A baixa de Manhattan é hoje mais dinâmica e populosa do que antes do 11 de Setembro de 2001, com mais do dobro dos habitantes, mas os atentados deixaram uma profunda cicatriz que Nova Iorque promete “nunca esquecer”.
Quem morava em Nova Iorque antes do trágico dia garante que a zona do World Trade Center, o complexo empresarial onde ficavam as Torres Gémeas, nada mais era do que um centro puramente corporativo e deserto à noite e aos fins de semana, mesmo sendo um dos principais “cartões-postais” da cidade.
Contudo, 25 anos após os ataques terroristas da Al-Qaida, os dados mostram uma das maiores transformações urbanas da história de Nova Iorque: a população residencial quase triplicou; o nó de transportes daquela área foi totalmente reconstruído com investimentos multimilionários, integrando a estética futurista ao comércio de luxo; e Lower Manhattan deixou de ser um local apenas para trabalhar ou recordar a tragédia, passando a ser um polo de entretenimento e artes.
Antes do 11 de Setembro, as Torres Gémeas atraíam cerca de 1,8 milhões de turistas anualmente ao seu miradouro. Hoje, o novo complexo atrai quase dez vezes mais pessoas, divididas por diferentes pontos de interesse.
“Lembro-me de ter vindo tantas vezes às Torres Gémeas, levar amigos que vinham de Portugal. Sempre gostei mais de os levar ao World Trade Center do que ao Empire State Building, por exemplo. Portanto, quem conheceu esta zona antes e quem a vê agora, vê que existiu um esforço de recuperação. (…) Hoje tem outra vitalidade”, disse à agência Lusa o nova-iorquino Henrique Mano.
Henrique, editor do Luso-Americano, jornal sediado no estado vizinho de Nova Jérsia, não esquece o trauma daquele dia que mudou o mundo, nem o “odor a morgue” que impregnou a cidade durante dias, mesmo morando a cerca de 60 quarteirões do ‘ground zero’, como ficou conhecido o local dos ataques.
“Quando consegui finalmente chegar a casa no dia seguinte, lembro-me nitidamente de abrir a porta de casa e de sentir um odor horrível, que emanava das chamas, do que restou das torres, e que se propagou por toda a Manhattan. Um odor a morgue. É horrível dizer isto, mas era mesmo. Morreram aqui quase três mil pessoas. Portanto, é complicado esquecer isso, por muitos anos passem”, refletiu.
O jornalista falou com a Lusa junto ao Memorial do 11 de Setembro, nas vésperas do 25.º aniversário dos atentados.
Inaugurado em 11 de setembro de 2011, 10 anos após os ataques, o memorial apresenta duas piscinas gémeas com cascatas, cercadas por parapeitos de bronze com os nomes das vítimas inscritos e localizadas precisamente onde antes ficavam as Torres Norte e Sul, que foram atingidas pelos aviões comerciais de passageiros sequestrados e desviados por elementos da organização terrorista Al-Qaida.
Milhares de pessoas visitam o memorial por dia. Tiram fotografias, contemplam os nomes inscritos, colocam bandeiras e flores junto aos nomes das vítimas.
No local, uma segurança apressa-se a avisar um jovem que não pode sentar-se no parapeito de bronze para posar para a fotografia.
“Temos de estar sempre atentos. Há sempre pessoas a fazer o que não devem. Temos até casos de vandalismo. Já para não falar das pessoas que se esquecem que este é um lugar solene, um lugar em que é preciso respeito pelas quase três mil pessoas que aqui morreram, e fazem poses a sorrir e a dançar para as redes sociais”, criticou à Lusa uma das seguranças do memorial.
A água que corre nas piscinas gémeas acaba a cair num abismo central, simbolizando o vazio deixado pela tragédia e a perda das quase três mil vidas.
A cidade conseguiu reconstruir-se economicamente, renovar a sua paisagem urbana e erguer o novo complexo do World Trade Center.
No entanto, a cicatriz permanece viva em várias frentes, incluindo na dor inultrapassável das famílias das vítimas e nos milhares de polícias, bombeiros e sobreviventes que ainda hoje sofrem de problemas de saúde crónicos devido à inalação de poeiras tóxicas no ‘ground zero’.
Esta semana, o atual presidente da Câmara de Nova Iorque, Zohran Mamdani, anunciou a divulgação de dezenas de milhares de documentos sobre o 11 de Setembro que revelam, segundo o autarca democrata, que a cidade ocultou informações sobre a toxicidade do ar após os ataques. Estima-se que mais de 9.400 pessoas morreram devido a doenças ligadas à exposição às consequências dos ataques.
Além disso, a convivência diária com a segurança reforçada demonstram que o trauma permanece como uma ferida aberta para muitos nova-iorquinos.
Os ataques ocorridos no dia 11 de setembro de 2001 provocaram 2.977 mortos, incluindo nove vítimas portuguesas e lusodescendentes, e constituíram o mais mortífero atentado terrorista cometido em território norte-americano.
Dois aviões sequestrados atingiram as Torres Gémeas do World Trade Center, em Nova Iorque, provocando o colapso dos edifícios duas horas após o impacto, enquanto um terceiro aparelho atingiu o Pentágono (sede do Departamento de Defesa) nos arredores de Washington.
Um quarto avião, que se acredita que tinha como alvo o Capitólio (sede do Congresso) ou a Casa Branca (presidência dos Estados Unidos), despenhou-se perto de Shanksville, na Pensilvânia, depois de passageiros e membros da tripulação terem tentado recuperar o controlo da aeronave.
Os atentados do 11 de Setembro desencadearam profundas alterações na política externa e de segurança dos Estados Unidos mas também a nível mundial, incluindo o lançamento da chamada “guerra contra o terrorismo” e a intervenção militar no Afeganistão.
Foi a única vez que o artigo 5.º da NATO, que prevê uma cláusula de solidariedade e estipula que um ataque armado contra um país membro da Aliança seja considerado como um ataque dirigido contra todos, foi ativado.
MYMM // SCA
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