EUA/Eleições: Clima político tóxico não deixa comunidade portuguesa indiferente

Um clima político tóxico nuns Estados Unidos à beira de eleições reflete-se nos imigrantes portugueses e lusodescendentes da histórica comunidade do Estado de New Jersey, disse em entrevista à Lusa o dirigente associativo Jack Costa.

Joaquim “Jack” Costa nasceu em Arcos de Valdevez há 50 anos e chegou com 14 anos à América, estabelcecendo-se em Newark, onde é dirigente do centenário Sport Club Português, ponto de encontro de uma comunidade de emigrantes que durante décadas “chegavam, integravam-se, melhoravam o sítio onde estavam, respeitavam as leis e sabiam ser bons cidadãos, e os americanos gostam disso”.

No entanto, desde que o republicano Donald Trump e o debate político nos EUA azedou num acantonamento de democratas e republicanos sem capacidade de diálogo, Jack assume que “não se consegue falar de política”.

“Eu evito, até tenho medo. Ninguém consegue ter uma conversa com educação e concordar com algumas coisas que a outra pessoa diz. É impossível. Se se indica que se vota no Partido Democrata, é-se logo atacado. Se se diz ‘o Trump é um tipo porreiro’…é para esquecer”, diz em entrevista à agência Lusa na sede do clube, situado no bairro de Ironbound, na cidade de Newark.

“É pena, porque eu gosto de falar com pessoas que pensam de maneira diferente, porque se calhar, vou aprender algo com eles e eles, comigo”, lamenta.

Com Trump no seu segundo mandato, Jack considera que se “parou de pensar e analisar” e ninguém na América, portugueses e lusodescendentes incluídos, “consegue dizer ‘sim, Trump está errado em certas coisas, mas tem razão noutras’”.

A economia e a imigração são temas caros à comunidade portuguesa de Newark, que Jack admite que votou em grande número em Donald Trump em 2020 porque “mesmo sendo imigrantes, achavam que se tinha que fechar a fronteira”.

“O que víamos era que os 37% de impostos que pagamos sobre tudo o que ganhamos estava a contribuir para trazer pessoas da fronteira para hotéis em Nova Iorque”, conta.

Jack Costa destaca “a guerra tão tóxica entre o Partido Democrata e o Partido Republicano” que o leva a recear que se preocupem mais em vingarem-se e desfazerem o que o outro lado fez do que a pensar como melhorar o país.

“Os portugueses estão divididos e talvez muitos dos que estão a favor do Trump não o vão dizer publicamente, porque são logo atacados. Mas nem tudo o que foi prometido há dois anos está a acontecer e é capaz de haver uma mudança”, admite.

Salienta que “a economia não está bem, está tudo horrível, muito caro, da bomba de gasolina ao supermercado”, e se geralmente “o país inteiro vota mais nas presidenciais, com tudo o que está a acontecer, pode aumentar a participação” nas eleições de meio de mandato de 03 de novembro, onde se jogará a composição da Câmara dos Representantes e poderá haver alterações no equilíbrio de forças no Senado, uma vez que os republicanos têm atualmente maioria em ambas as câmaras do Congresso.

“O português que cá está já sente que está em sua casa. Se calhar, há 30 anos, muitos só tinham o ‘green card’ e não podiam votar, mas agora já podem e envolvem-se mais”, argumenta.

Da mesma forma, assinala que o progresso da integração dos portugueses de Newark na sociedade americana veio retirar alguma força a coletividades como aquela que dirige.

“Tivemos que nos ajustar. Temos uma escola portuguesa aqui no clube com perto de 300 alunos. Há 30 anos, as mães e os pais falavam Português em casa e os miúdos já vinham com uma base. Agora, já há muitos casos em que ou a mãe ou o pai não falam português”, nota.

“As crianças agora chegam sem falar e os métodos de ensino tiveram que mudar para as conseguir cativar, sabendo que vão para casa e não vão falar Português a tempo inteiro”, refere.

Aumentou também a dificuldade de arranjar quem ensinasse a língua e “há alunos que querem aprender português e não conseguem”.

Igualmente, a internet fez diminuir a distância da realidade de Portugal, mas o convívio entre os portugueses diminuiu: “há 30 anos, quando havia um jogo, vinham todos para aqui ver, mas hoje, conseguem ver tudo em casa”.

“É a realidade. As coisas não se mantêm como dantes. Parámos de ter sangue novo a vir. Por exemplo, a ementa em muitos restaurantes não mudou do que seria nos anos 70 e 80. Antigamente, vinha sempre alguém novo, trazia ideias novas, mas isso já não é assim”, assinala.

Jack Costa admite que essa realidade é um sintoma do sucesso da integração: “nunca se disse que os portugueses não se querem integrar com os americanos”.

“A primeira coisa que fazíamos quando conhecíamos um americano era dizer-lhe: ‘anda cá, vou mostrar-te vinho português!’. Eles gostavam e isso enchia-nos de orgulho, sempre fomos assim. Nos últimos 15 anos, foram os americanos a descobrir Portugal e agora vêm perguntar sobre o país”, afirma.

Acrescenta que os filhos nascidos nos Estados Unidos querem principalmente fazer a sua vida no país onde vivem.

“Podemos fazer uma viagem de cinco horas até Washington e os portugueses começaram a querer fazer isso, até porque os filhos também puxam para isso, a nova geração que ainda está ligada a Portugal, mas já não é todos os fins de semana que temos que ir para o clube ou comer comida portuguesa”, afirma.

APN // ACC

Lusa/fim

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