EUA/Eleições: Impostos e preço dos combustíveis preocupam comunidade lusa-americana de Chino
As propostas para novos impostos, o preço dos combustíveis e o aumento do custo de vida são as grandes preocupações da comunidade luso-americana de Chino, cidade no sul da Califórnia com quase 100 mil habitantes, a caminho das eleições intercalares.
“Eu gostaria de proteger os impostos sobre a propriedade para as nossas pessoas. Há algumas proposições que, se passarem, podem afetar os impostos de propriedade no futuro”, disse à Lusa Abel Dutra, lusodescendente que trabalha em imobiliário e está preocupado com as propostas no boletim de voto dos californianos. “É importante preservarmos o legado do que nossos pais trabalharam”, afirmou.
As eleições intercalares de 03 de novembro vão decidir não apenas o controlo das duas câmaras do Congresso, mas também outros cargos importantes, como governadores, presidentes da câmara ou propostas específicas em cada estado. Na Califórnia, há cinco proposições relacionadas com impostos.
“Isso é muito relevante para mim”, afirmou Dutra. “Os nossos pais, infelizmente, estão a chegar a uma idade em que já não vão estar connosco por muito mais tempo. Quando nós, as famílias, herdarmos essas propriedades, como é que vamos ser afetados?”, questionou. “Que impostos vão pôr em cima disso?”
Uma das medidas mais controversas é a Prop 40, que pode tornar a Califórnia no primeiro estado a aprovar um imposto extraordinário sobre as fortunas: os californianos com um património superior a mil milhões de dólares (891,6 milhões de euros) poderão ter de pagar uma taxa única de 5%.
Os oponentes temem, no entanto, que esta proposta – a que o governador democrata do estado, Gavin Newsom, se opõe – abra a porta a mais impostos sobre o património e a propriedade.
As eleições intercalares acontecem numa altura em que o crescimento económico está a ser pressionado, sobretudo pelo aumento do preço dos combustíveis e inflação, que em 2026 atingiu os 3,7%.
Ainda assim, a comunidade de origem portuguesa em Chino, que veio sobretudo dos Açores, está bem estabelecida e assimilada. As gerações mais velhas, que não falavam bem inglês quando chegaram, têm agora posições confortáveis, explicou à Lusa Marco da Rocha.
“As pessoas que emigraram nos [anos] 60 e 70 estão bem nas suas vidas, estão regulares”, indicou o português, que trabalha no distrito escolar de Chino.
“Economicamente estão bem, mas as coisas estão mais difíceis”, indicou. “Se não fosse o trabalho que eles tinham tido durante esses anos todos de estar aqui, de se terem regularizado e terem feito os seus pés de meia e comprado as suas casas, iam ficar mais em apuros”.
O português natural da ilha Terceira apontou para o custo de vida e da habitação, questionando se a sua filha pequena terá possibilidade de comprar casa no futuro. “Eu estou mais preocupado com os mais novos agora”, realçou.
Gerard Batista, tio por afinidade do ex-congressista republicano Devin Nunes e bisneto de imigrantes açorianos, mostrou-se crítico dos preços dos combustíveis.
“Os portugueses podem ser um bocadinho sovinas. Detestam gastar dinheiro desnecessariamente, mas gastam”, disse à Lusa. “Na comunidade mais alargada, de portugueses ou não, é uma questão de sobrevivência e de poder fazer as coisas que se quer. E de repente estamos a pagar mais pelos combustíveis e mais pelas mercearias”, apontou.
O preço dos combustíveis disparou 43% nos Estados Unidos desde o início da guerra com o Irão, em fevereiro, e esse aumento já ultrapassa os 50% na Califórnia. Mas Batista, que está no negócio da venda de automóveis desde 1972, mostrou-se crítico sobretudo da carga de impostos sobre os combustíveis no estado.
“Vem tudo de cima”, justificou. “Se conseguirmos tornar os preços mais acessíveis, se os impostos não forem abusivos e os salários acompanharem, as pessoas não vão estar tão receosas”.
O lusodescendente considerou que há medo por causa “do que está a acontecer no mundo”, mas que historicamente não é novo. Também ressalvou que a situação económica é cíclica e que já assistiu a condições piores. “Porque é que as pessoas emigraram? Para encontrarem um caminho melhor, não tanto por ser um ambiente melhor”, disse, “porque não há nada mais belo que Portugal, Europa, as ilhas”.
Batista lembrou que, quando entrou no negócio dos carros, havia racionamento de combustível nas bombas de gasolina e os juros dos empréstimos eram de 17%.
“Não podemos olhar para as coisas negativamente”, considerou. “Temos de encontrar uma forma de olhar pelo aspeto positivo”.
A cidade de Chino é representada pela congressista democrata Norma Torres, embora os seus eleitores tenham votado em maioria no presidente Donald Trump nas eleições de 2024. A maior parte dos luso-americanos na Califórnia identifica-se com o partido republicano, em especial as gerações mais velhas.
ARYG // VM
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